e de que me vale?
sentir não é talento nem dom
muito menos profissão
e sentir tanto assim
me impede de ser coisa além
desse coração rasgado e exposto
à visitação pública
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Marcadores: miudezas alheias
esse elefante branco que a gente não sabe onde estacionar
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meu corpo já não é um corpo só
inteiro
molecular
celular
meu corpo é uma nesga de luz
que rasga a carne
e se estende infinito
onde só alcançam os dedos da lembrança perdida
lugar qualquer entre o primeiro átomo e hoje
ali no espaço minúsculo entre os ossos e alma
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vem de longe
de antes de tudo
o meu saber te amar
veio na poeira da primeira explosão
no silêncio do todo
se movendo
e chegou aqui bilhões de anos depois
intacto, ainda na embalagem
com cheiro de novo e embrulhado para presente
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quando é que se escolhe a vida?
quero você, meu amor quitinete
onde eu me espalho e atulho coisas
penduro nas paredes
esparramo pelo chão
empilho nos cantos
habitando, espaçosa, teu coração de alvenaria e paredes brancas
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a geografia da amizade é dilacerante
eu fico assim
despedaçada
um pedaço de carne
pulsante e vermelha
em cada lugar
onde vive um amigo
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Acordei com vontade de comer pitangas
Como alguém esquecido que voltasse do mar
me lambuzar
manchar todas as camisas
e as cortinas da sala
hoje quero cair em cheio
como a chuva que vem de lá
molhar o chão do quarto de hotel
desfazer malas e certezas
e ao olhar no espelho
ver que penso tudo que vejo
e sinto com minha razão
como quem comesse pitangas
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As costas despelando depois do dia de sol (não qualquer um: a quarta-feira mais quente e linda do ano!) foi culpa da mania hereditária de não pedir ajuda.
Mas o despelar, a pele queimada, morta, só senti uma semana depois, no banho.
Prevendo a dificuldade de dar conta disto também sozinha, dirigi-me às Lojas Americanas mais próximas.
O objeto de desejo: um escovão.
E lá estava: entre, buchas e fivelas de cabelo, o derradeiro atestado da minha total independêcia.
Aí bateu uma angústia esmagadora, uma tristeza de não ter quem esfregasse as minhas costas no banho... e a sensação de que se eu comprasse aquele escovão estaria assumindo uma longa vida de banhos sozinha e costas despelando.
Pensei em mim mesma na frente do ventilador, olhos arregalados tentado tirar um cisco do olho direito, ou caída no chão da cozinha com uma crise de ciático, ou então tendo que tomar um milk shake de ovomaltine sozinha, ou colocar eu mesma o termômetro e checar a temperatura, ou tendo que passar o protetor solar fator 250 quando a camada de ozônio já tiver virado uma lenda! e dezenas de outras pertubadoras projeções...
o escovão? deixei nas Lojas Americanas da Rua das Laranjeiras.. pendurado, com aquela cara de quem descobre um segredo : sim, eu sou uma romântica incurável!mas não conta pra ningém, por favor...
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devo confessar minha paixão pelos advérbios
essa forma de ser palavra
de conjugar substantivos
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A minha mais nova poesia
É um brocado de veludo azul
Onde vou costurar vaga-lumes
Vindos do país de longe
De antes do Vir-a-ser
Da minha nova poesia
Vou fazer um vestido de baile
De saia rodada
Barra bordada
E decote de lua minguante
Para dançar em festas que não existem mais
Onde a orquestra
Vai tocar uma velha canção
Que fará flutuar castiçais
E velhinhas em suas mesas
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gostava de ficar à sombra do tempo
debruçada na janela
a sentir o cheiro de melancia que vinha do mar
e brincar de mímica com as nuvens
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eu queria ser
esmagadora
catastrófica
escandalosa
como um vulcão
mas sou miudinha
e caibo quietinha
no teu bolso
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e no dia em que ela morreu
para o espanto do médico legista que realizou a autópsia
lá estava
entre o baço e rim esquerdo
o homenzinho há muito desaparecido
desorientado e faminto
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meus cabelos vermelhos e esse vestido amarelo não disfarçam: minha cor é gris
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eu vim ao mundo com duas lentes macro no lugar dos olhos
me apego aos detalhes às texturas
e me assusto facilmente com a formiga gigante dentro do pote de açúcar
me dói mais um espinho no pé que um murro no estômago
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os animais selvagens e as dores deveriam ser inomináveis
determinadas coisas não cabem em palavras
como denominar esse sentimento de orvalho
que fica na beira dos olhos na hora da despedida
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não sou lá muito afeita aos sinais de pontuação
esses trombos que ficam entre um sentimento e outro
e interrompem o fluxo sanguíneo da poesia
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qual a matéria da poesia
a cor da angústia
a gramatura da dor
quero imprimir
minha alma numa gráfica
rápida
distribuir nas esquinas
como propanganda de agiota
e vê-la voar raso pelas calçadas sujas da conde da boa vista
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eu quero o avesso
deixar a etiqueta de fora
a bainha desfiada
usar os ossos sem a carne e esculpir neles heras e flores azuis
engolir os cabelos
cuspir escorpiões escarlates
encontrar a nascente das unhas
e num suspiro último aspirar a cidade e suas luzes
para expirar num sopro longo a multidão sombria que habita em mim
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vivo num mundo de gigantes
sou o bicho-de-pé da humanidade
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eu preciso de microscópios para me encontrar
para encontrar em mim minha partícula essencial...
e eu sinto
enquanto isso
em algum lugar muito dentro e muito escuro
a partícula minúscula que passeia escolhendo
o melhor lugar para se esconder de mim
e me comer de dentro para fora
silenciosamente
até eu ser nada
nem sombra
nem sopro
ou idéia
eu vou morrer de mim
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eu tenho esse desejo estranho de me dilacerar... retalhar a carne, fatiar os ossos,
desfiar os sentimentos e distribuir pelo mundo como lembrancinhas de viagem:
"fui à amanda e lembrei de você".
uma vontade de fim e de eterno, de expansão e fragmentação,
como se fosse possível estar em todos os lugares e amar todas as pessoas
e ao mesmo tempo me livrar mim.
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Difícil encontrar a mim mesma ... às vezes me perco e fico sem me ver durante dias, semanas ... tenho procurado embaixo de entulhos, dentro gavetas e bolsos, na mala ainda fechada em cima do guarda roupa ... outro dia! me vislumbrei num bilhete esquecido dentro de um livro de sebo... coisa breve... talvez tenha me confundido...
e agora essa possibilidade de voltar... de revisitar o passado ( ou seria um presente paralelo?) ... começo a rever meu reflexo no espelho da colher... reflexo de dentro (os espelhos planos só nos mostram a superfície): olhos esbugalhados num olhar perplexo de quem encontra um fantasma no momento sonâmbulo do primeiro gole de café ...
ps. “querido”, é verdade que só se escreve em momentos de perplexidade... no momento do susto... como naquele em que se olha pra baixo e vê-se um corpo inteiro sem cabeça e essa coisa frágil, estrangeira e imperfeita é você mesmo! Ou quando se envia gritos pro universo e a mensagem bate no ponto inesperado, ecoando de volta avessa e real como o reflexo na colher...
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No meu quintal tem um poço seco
uma tampa velha de madeira com uma pedra por cima
calam o poço já nem lembro há quanto faz
Todos os dias cedinho
quando ainda é madrugada
levanto descalça
vou até o poço
Na tampa pesada há uma brechinha
sobre a qual me debruço e olho:
dentro do poço
no fundo
uma menina costura roupinhas de boneca
- apesar de eu nunca ter visto uma boneca no poço -
Ela tem os olhos de mar
as mãos de algodão
a pele de sal
e sempre me olha em silêncio
calada como o poço
como se houvesse uma pedra em sua boca
Em seus olhos me vejo como num lago verde de lodo
e reconheço sua saudade e solidão
mas há algo desconhecido em seus olhos que me apavora
Volto correndo para a cama
sujo meus lençóis de terra
passo o resto do dia ali
com saudades da menina do poço
esperando a próxima madrugada
E choro pensando se a menina do poço
sofre de frio ou fome ou de insônia
mas é idiotice chorar assim
A menina do poço não chora nunca
nem por mim
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mais um sonho. daqueles absurdos. todo prateado, com alienígenas invasores, subterrâneos trens... preciso fugir... só porque vi, não sei ao certo o que vi, mas vi tenho certeza e era pavoroso... preciso fugir...me despedir das coisas, da casa abandonada em pau amarelo, da cama, da mulher ao meu lado que me ajuda a fugir e me faz um último carinho... a mulher é uma garçonete de pub, linda, fiel e bobinha... me ajuda a encontrar as saídas... explodi uma dinamite pela janela... adeus passado, adeus casa da infância e cama onde me escondi embaixo pela última vez. a saída é um labirinto de trilhos e escadas rolantes. muitos níveis abaixo escolho um trem...aleatoriamente... deixo a mulher, deixo ele também. paixão irrealizada e impossível... puro tesão...mas contido... escolho um vagão antigo que mais parece uma carruagem, tento convencer a mulher a vir comigo, suíça, polônia, moscou...deve haver um lugar seguro... ela não vem,fico um pouco aliviada... ele também não vem... peço que me espere, talvez eu volte... quero ter certeza que ele estará lá... o trem parte e eu me abaixo para que ninguém me veja mais, nunca mais... e enquanto se distancia percebo que minhas mãos estão fora de foco e meus pés também, e aos poucos toda eu. meu corpo se transforma num embaçado transparente como uma lembrança que aos poucos vai sendo esquecida.
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Hoje o menininho vai dormir de luzes acesas
Para não ter mais medo
E ela vai segurá-lo, pequenininho, na sua mão
E se o menininho dormindo
Desperta no meio da hora
De susto, pesadelo ou visão
Ela vai segurá-lo mais perto
Quase na ponta do nariz
De olhos zarolhos e sorriso entre parênteses
Ela vai soprar a barriga pequenina da miniatura em sua mão
De cócegas o menininho, feliz, vai rir
E cansado de gargalhar
Vai deitar outra vez na palma de sua mão
E dormir
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,fantasias somente. espectros imaginados.não restou uma lembrança real sequer. sei da criança magrela,chata e metida que fui somente por fotos e vhs. lembrança orgânica mesmo, registro real, nenhuma além de umas poucas cicatrizes. não lembro do adulto que queria ser ou a profissão que queria ter. me perdi em meio a sonhos nunca realizados, nem mesmo sonhados.
cortei todas as amarras e flutuo ao léu num universo que se constitui de muitas e iguais coisas miúdas quase invisíveis. caminho sempre com os olhos semicerrados, fazendo da realidade uma matéria fluida que se dilui em mim. eu e o rio somos então um só aglomerado de pontículos desfocados perdido na imensidão silenciosa e meticulosamente organizada da normalidade.
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as coisas pequenas me encantam
maquetes, miçangas, botões
grãos de ervilha, lantejoulas
formigas e abelhas
piscada de olho
milésimos de segundo
colher de chá
coisas de guardar em caixinhas
coisas que caem do bolso furado
clips, biliros, tarracha de brinco
os pequenos sentimentos
a saudade miúda
a dor agudinha no fundo
a lembrança pequenina e embaçada
o meu coração num dedal
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